
A mensagem parecia simples. Junto com ela, veio um formulário de RFI — Request for Information.
Abri o arquivo esperando encontrar algumas dúvidas objetivas. Mas não era isso.
Para responder corretamente, seria necessário entender o consumo da empresa, analisar a demanda contratada, dimensionar a usina, avaliar o telhado, definir equipamentos, prever riscos, calcular o retorno financeiro e estabelecer o que deveria ser contratado.
Em outras palavras: não estavam pedindo informações. Estavam pedindo o projeto inteiro sem chamá-lo de projeto.
A ideia era enviar o mesmo formulário para várias empresas, reunir as respostas e entregar tudo a um funcionário interno. Depois, com aquelas informações, ele deveria comparar as propostas e decidir o que comprar.
O problema é que ele não tinha conhecimento técnico para saber se as respostas estariam corretas.
Também não conseguiria perceber quando um fornecedor estivesse dimensionando o sistema de acordo com o interesse dele, e não de acordo com a necessidade do cliente.
No final, surgiria uma planilha bonita, cheia de números, equipamentos e promessas de economia. Tudo pareceria muito técnico. Mas ninguém seria realmente responsável pela solução.
Expliquei que, antes de pedir preços, a empresa deveria contratar uma consultoria independente. Alguém precisava estudar o caso, definir o projeto correto e preparar um escopo que permitisse comparar propostas equivalentes.
A resposta veio quase imediatamente:
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“Mas isso não parece tão complexo. O ChatGPT disse que é simples.”
E foi aí que percebi que o problema era muito maior do que aquele formulário. Estamos começando a confundir acesso rápido à informação com conhecimento.
O ChatGPT pode gerar imagens, explicar como funciona uma usina solar, organizar informações, realizar alguns cálculos e até ajudar na análise. Mas ele não subiu no telhado, não avaliou o perfil de consumo da empresa nem mediu o que acontece a cada hora do dia. E, principalmente, não será responsabilizado se a decisão estiver errada.
O meu exemplo vem do setor de energia, mas tenho certeza de que a situação se repete em praticamente todas as profissões. Para o advogado, é “só dar uma olhada no contrato”. Para o arquiteto, é “só desenhar uma ideia”. Para o engenheiro, é “só conferir se funciona”.
O “só” quase sempre esconde anos de estudo, experiência, responsabilidade e trabalho.
Quem está pedindo enxerga apenas os minutos necessários para receber uma resposta. Não enxerga os anos de estudo, os erros, as experiências, os riscos assumidos e tudo o que aquele profissional precisou aprender para conseguir responder com segurança.
Depois de tantos anos trabalhando com energia, aprendi que os erros mais caros quase nunca começam com algo que parece complicado. Eles começam justamente com frases como: “É só uma dúvida.”, “Dá uma olhada rapidinho.” ou “Não deve ser tão difícil.”
Me considero com muita sorte, felizmente, na nossa empresa a maioria dos nossos clientes compreende a importância do conhecimento e da experiência. Eles não enxergam apenas os equipamentos ou a instalação. Reconhecem o valor agregado de uma solução bem estudada, bem dimensionada e executada com responsabilidade. Entendem que uma boa consultoria não é um custo desnecessário. É uma forma de proteger o investimento e evitar erros que poderão custar muito mais no futuro.
O valor de um especialista não está apenas no tempo que ele leva para responder. Está nos anos que precisou estudar, trabalhar, errar, acompanhar problemas e encontrar soluções até conseguir identificar, em poucos minutos, aquilo que os outros ainda não perceberam. Está na hora de valorizarmos mais o conhecimento antes de precisarmos pagar pelo erro.
Qual é o “rapidinho” da sua profissão? Quero saber. Conte-me aqui abaixo.
Publicado originalmente no LinkedIn em 10 de setembro de 2026. Ver a publicação original
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